SINODALIDADE E O SERVIÇO DE ANIMAÇÃO VOCACIONAL

    Dom João Francisco Salm (Bispo da diocese de Novo Hmaburgo)

    A vivência cristão e eclesial, o modo como juntos seguimos a Jesus em nossas comunidades, paróquias e dioceses exerce influência decisiva no despertar vocacional e na qualidade dos vocacionados e vocacionadas: condicionam as motivações de fundo, a compreensão do que sejam a vocação cristã, as diferentes vocações e ministérios na Igreja e a própria Igreja e sua missão.

    Além disso, nas redes sociais (tão poderosas!), há grupos e pessoas com influência ainda maior sobre crianças e jovens no momento do despertar vocacional, sobretudo quando a vida comunitária é fraca ou inexistente. Uma adequada Catequese de Iniciação à Vida Cristã (de estilo catecumenal), o atendimento personalizado com orientação lúcida e a direção espiritual certamente fariam a diferença.

    Nessa hora da implementação das conclusões do Sínodo sobre a Sinodalidade da Igreja, as equipes de Pastoral Vocacional e o serviço de animação vocacional precisam ter isso em conta, e ainda com maior empenho, realizar seu trabalho exercitando-se na sinodalidade com força colaborativa em todos os sentidos. O Texto-Base do 5º Congresso Vocacional do Brasil veio para ajudar nisso.

    A Igreja cresce por atração

    “A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por “atração”: como Cristo “atrai todos a si” com a força do seu amor” (Bento XVI – 13.05.07 – Aparecida). Transmitimos a Fé para as novas gerações na medida em que a apresentamos atraente. E o que deve atrair é o amor vivido numa Comunidade participativa, acolhedora, misericordiosa, missionária, transformadora, em saída, fraterna, que sabe olhar e ver, que escuta, atenta à Palavra de Deus e orante.

    A transmissão da Fé

    A formação cristã ensina e dá a conhecer aquilo em que cremos (o conteúdo da nossa Fé), o modo como vivemos (a moral, os Mandamentos, o amor), como celebramos (a Liturgia) e como é nossa relação com Deus na oração pessoal e comunitária. Dar a conhecer o modo como vivemos inclui a apresentação das Pastorais, Movimentos e Serviços em todas as frentes, nosso modo de viver dentro da Comunidade e nossa “saída missionária” com presença na sociedade como sal e luz que transformam. Terá força de atração uma vida comunitária bem-organizada, que promove os ministérios, com Conselhos de Pastoral e de Economia, planejamento, formação de lideranças e uma autêntica e sadia Espiritualidade de Comunhão conforme ensinou São João Paulo II (Cfr. Novo Millennio Ineunte, nº. 43).

    Diferentes modos de ser Igreja

    Sirvo-me, aqui, de uma comparação que, há alguns anos, se fazia em encontros de formação. Dizia-se que o nosso modo de participar e de ser igreja não pode se parecer com um caju, em que semente e fruta não se misturam. Seria como uma canoa que desliza por cima dos problemas sem mergulhar neles. É igreja que tem receitas e respostas para tudo, sem se importar com a situação das pessoas e do povo. É igreja para o povo e não do povo. Perde-se em muitas complicações e burocracias. Procura manter os fiéis submissos, como se o povo é o que apenas recebe. Deixa de ter iniciativas. Desta maneira a transformação sempre fica para depois ou nunca. A verdadeira reconstrução do povo, ou vem das comunidades ou nunca acontecerá. Este tipo de igreja entristece o Espírito Santo. Impede a caminhada do povo.

    Também não seria uma Igreja com força de atração aquela que se parecesse com um abacate: a semente está por dentro, mas sem se misturar com a massa da fruta. Uma Igreja tipo abacate é aquela que parece estar por dentro dos problemas. Tem uma linguagem atualizada. Cita muito os documentos da Igreja. Fala de povo. Em seus planos tem como trabalho “número UM” a formação em geral. Até usa uma linguagem atualizada. Gosta de planejar. Mas, apesar de toda esta aparência, não vai à raiz dos problemas. Fica muito na teoria. Tem medo de entrar pra valer. A Igreja tipo abacate não tira os raios-X da situação. Contenta-se com retratos da situação.

    Um outro modo de participar da igreja ou de ser igreja, poderia ser representado por uma laranja: sementes e gomos estão misturados. Há entrosamento e comunhão entre as pessoas. Não há tanta preocupação com os cargos e títulos. Esse entrosamento nasce do fato de que os membros desta Igreja têm consciência do valor do seu Batismo. Alimentam-se do contato com Deus e na convivência com as pessoas, sobretudo as mais necessitadas. O Espírito Santo é a sua força principal. Movida pelo Espírito e convivendo com as pessoas, ela vai testemunhando que a vida é mais forte do que a morte. Esta Igreja, onde domina a comunhão, é una, não só porque tem os mesmos ritos, mas sobretudo porque é um só coração e uma só alma. É uma igreja santa, não só porque luta contra falhas pessoais, mas, sobretudo, porque luta contra aquilo que gera dor, sofrimento, desunião, miséria. Esta Igreja é apostólica, porque a comunidade toda é enviada a ser missionária.

    O ambiente condiciona

    “Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. A concepção eclesial vivida em família e na Comunidade conferirá características específicas ao modo de pensar, de viver e de seguir a Jesus Cristo, por tarde de crianças e jovens que ali vivem sua iniciação à vida cristã. Seu despertar vocacional e a concepção da identidade de cada vocação na Igreja estarão condicionadas pelo modelo de Igreja experimentados desde criança.

    A origem eclesial dos vocacionados e das vocacionadas

    Se entendermos que vivemos no tempo em que o grande apelo é que nos convertamos a uma Igreja Sinodal (Comunhão, Participação e Missão), a Pastoral Vocacional e o Serviço de Animação Vocacional não podem deixar de se preocupar com a origem eclesial dos vocacionados e das vocacionadas. Depois, tenderão a perpetuar o que experimentaram na sua Comunidade de origem. O processo formativo terá de estar atento a isso porque as dificuldades serão grandes e a tendência será voltar atrás e acomodar-se, não acompanhando a Igreja em suas opções e caminhos e época de tantas mudanças, ou melhor, numa mudança de época. Por isso temos hoje tanta gente seguindo em trilha paralela ou mesmo em sentido contrário. Vale a pena recordar o que teria afirmado o Papa São João XXIII: “A Igreja não é um museu de antiguidades, mas sim um vívido jardim cheio de vida”. Por isso, não tanto um museu a ser conservado quanto um jardim a ser cultivado.

    A natureza comunitária do Evangelho

    O que está em jogo é o compromisso com a experiência concreta da vida segundo o Evangelho, que é de natureza comunitária. Jesus, Deus encarnado, afirmou que recebeu o Evangelho do Pai e assim o deu a conhecer a todos nós. E que, por isso, nos chama não de servos, mas de amigos. A natureza do Evangelho é sinodal porque a Santíssima Trindade é pura sinodalidade (comunhão, participação, missão), fonte de inspiração para toda a Igreja.

    A sinodalidade na animação vocacional

    Sendo assim, a Pastoral Vocacional e o Serviço de Animação Vocacional terão de ser assumidos em chave sinodal. Tanto no âmbito Diocesano como Regional e Nacional: estudar juntos, escutar uns aos outros, refletir e rezar juntos, tomar iniciativas, planejar e executar projetos juntos, em diálogo e partilha de experiências, envolvendo sempre, ao máximo, a comunidade e todas as suas “forças vivas”. Só se consegue entender o Evangelho na medida em que se entende e se vivencia o que é Igreja Sinodal (Comunhão, Participação e Missão). A consciência vocacional precisa de uma sadia consciência do que seja Igreja sinodal, identificação com ela, encantamento e entusiasmo, sempre em comunhão com os Bispos e o Papa como sinal de fidelidade a Jesus Cristo que nos amou tanto!

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