Texto: Padre Fábio Luís Galle
Fotos: Padre Claudio Vicente Immig
Em nome da Diocese de Novo Hamburgo, o coordenador da Pastoral Evangelizadora, padre Claudio Vicente Immig, realizou, em dezembro de 2025, uma viagem missionária à África. O destino da visita foi a Diocese de Nampula, em Moçambique.
Durante a missão, padre Vicente visitou a Paróquia São Miguel de Mecani, comunidade onde atua o padre Henrique Neis, sacerdote missionário enviado pela Diocese de Novo Hamburgo. A visita teve como objetivo fortalecer os laços missionários, conhecer de perto a realidade das comunidades locais e partilhar a vivência da evangelização em território africano.
Segundo o coordenador da Pastoral Evangelizadora, a experiência permitiu acompanhar o cotidiano da missão, marcado pela simplicidade, pela fé viva do povo e pelos desafios enfrentados pelas comunidades. Em entrevista ao jornalista padre Fábio Luis Galle, padre Vicente relatou momentos de alegria, acolhida e esperança, mas também destacou as dificuldades encontradas, especialmente nas áreas de infraestrutura, recursos e apoio pastoral.
O sacerdote também ressaltou a importância da Coleta de Pentecostes, realizada anualmente nas comunidades da Diocese. Os recursos arrecadados são destinados à manutenção das obras missionárias e ao sustento das ações de evangelização desenvolvidas na África. Conforme destacou padre Vicente, essa contribuição é um gesto concreto de solidariedade e comunhão da Igreja, permitindo que a missão continue levando esperança, fé e auxílio às comunidades mais necessitadas.
A seguir, confira a íntegra da entrevista com o Padre Vicente, que compartilha sua experiência missionária
Padre Fábio: Que dia o senhor foi? como foi a viagem, tempo de ida?
Padre Vicente: Eu fui no dia 06 de dezembro de 2025 e retornei no dia 29 de dezembro do mesmo ano, com o objetivo de passar o natal na missão. A viagem foi bastante longa, com conexões em São Paulo, Joanesburgo (Africa do Sul), Maputo (capital de Moçambique), Nampula (sede da diocese em que os missionários do regional Sul 3 estão) e depois disto, ainda seguiram 6 horas de carro até a casa da Missão que está na Vila de Moma. A viagem foi muito longa, mas com a boa companhia da irmã Ilca Welter, que estava retornando de férias, tornou-se um tempo de convivência e fraternidade. O Pe. Henrique seguiu em outro voo, fazendo outra rota, em função de um contratempo. Ele chegou em Nampula um dia depois de nós.
Padre Fábio: Em qual país e diocese o senhor esteve? Qual paróquia visitou durante essa experiência?
Padre Vicente: Estive em Moçambique, diocese de Nampula. Visitei a paróquia São Miguel de Mecani.
Padre Fábio: Como é o trabalho pastoral realizado pelo padre Henrique Neis que atua nessa paróquia africana?
Padre Vicente: O trabalho pastoral realizado pelo padre Henrique Neis é bastante desafiador, pois ele, sendo pároco, assume a responsabilidade de acompanhar e organizar o atendimento pastoral e sacramental de 122 comunidades, organizadas em 2 regiões, divididas 22 zonas (organização da área eclesiástica-pastoral da paróquia). Na sede da paróquia, moram três irmãs (da Congregação das filhas do Amor Divino), sendo que na casa missionária que fica na Vila de Moma, moram o Pe. Henrique (diocese de Novo Hamburgo), o Pe. Mauro (diocese de Frederico Westphalen) e o leigo Benedito (professor aposentado de biologia da diocese de Osório). Além do acompanhamento pastoral paroquial, também é realizada a manutenção do Lar Vocacional e os projetos sociais de educação na Vila de Moma.
Padre Fábio: Como foi a experiência de viver mais de perto a realidade das comunidades locais?
Padre Vicente: Foi muito significativo fazer esta experiência, em que de fato, não estava ali para fazer turismo ou para ver a realidade à distância, mas sim, fazer uma visita missionária, vivenciando o dia a dia da missão. Antes da viagem o Pe. Henrique já havia programado um roteiro para que eu pudesse acompanhar e conhecer a realidade da missão. Participando ativamente em alguns momentos, celebrando a eucaristia e auxiliando na formação de um grupo de “anciãos” (líderes da comunidade).
Padre Fábio: O que mais chamou sua atenção logo nos primeiros dias de convivência com o povo?
Padre Vicente: Alguns aspectos da cultura local: logo me impactaram as casas, no estilo de construção e sem divisórias internas e sem móveis. A simplicidade no modo de viver e com toda a certeza a alegria e acolhimento afetuoso.
Padre Fábio: Como o senhor foi acolhido pelas comunidades e de que forma elas expressam a fé no dia a dia?
Padre Vicente: As comunidades acolhem os missionários com muita alegria. Existe praticamente um rito de acolhida. A gente chega, sendo saudado por todas as pessoas da comunidade, que já estão reunidas esperando a chegada dos missionários. Com cantos de alegria aguardam até que cada um seja saudado individualmente, com um aperto de mão ou outra expressão de proximidade. Os missionários se apresentam de modo muito direto, dizendo o nome e de onde vem. Em seguida são ditas umas palavras de boas vinda pelo ancião da comunidade. Depois vamos para o “mata-bicho” (primeira refeição do dia que corresponde ao nosso café da manhã). Em seguida todos se preparam para a celebração da missa. A procissão de entrada é com muita dança e cantos bem expressivos e participados. O idioma usado nas celebrações é o “Macua” (língua local), somente o evangelho é lido em português e macua. Antes da homilia é realizada uma partilha da palavra, em que de 5 a 7 pessoas dizem o que a sagrada escritura os inspirou. Um dos anciãos faz a tradução da homilia proferida pelo padre em português para a língua local. A apresentação das oferendas novamente é feita de forma muito entusiasmada, com cantos e dança, em que trazem os frutos da terra e outros alimentos para entregá-los a quem preside a celebração. Interessante observar que ao longo do ano (pela carência de padres) muitas comunidades tem somente uma missa, sendo que todos os domingos se reúnem para fazer a celebração da palavra, presidida pelos anciãos da comunidade.
Padre Fábio: Quais são os principais desafios sociais e econômicos enfrentados por essas comunidades?
Padre Vicente: Os desafios sociais e econômicos estão associados a realidade de um país que está com sua independência muito recente, com uma democracia ainda bastante frágil, em que existem práticas de exploração e corrupção que por vezes, tornaram-se corriqueiras e que dificultam o desenvolvimento e o progresso equitativo e com bases na dignidade humana. Em geral as pessoas sobrevivem com as coisas mais básicas, agricultura familiar (machamba), a subsistência alimentando se com frutas como a manga, e a comercialização do caju. O transporte em geral é feito em motos e bicicletas, impressionando a quantidade de pessoas e de objetos que conseguem carregar em uma única moto ou bicicleta.
Padre Fábio: De que maneira a cultura local influencia a vivência da fé e a organização
Padre Vicente: A contagem cronológica é até complicada de ser feita; considerando as diferenças de fuso horário, conexões, viagem de ida e retorno e sobretudo, o fato de o modo de viver o tempo na missão ser muito diferente de viver o tempo aqui, faz com que este cálculo não seja tão matemático. Devo dizer que a viagem até a área missionária e o retorno fazem parte de um conjunto inseparável, quando se fala em missão, pois todo o percurso também mexe com a gente, pois é necessário preparar-se com antecedência e ao retornar, ir assimilando as vivências e motivações despertadas diante das experiências confrontadas. Afirmo que não é possível descrever os sentimentos, que aliás, não são somente sentimentos ou sensações, mas vivências muito concretas que com certeza são únicas e que dependem da motivação de quem vai e de quem volta. Foram 25 dias de viagem missionária que passam a fazer parte da minha vida, não em uma quantidade de dias, mas de vivências, que recomendo como imperdíveis para quem tiver a oportunidade de viver. A sensação ao voltar para casa é a de que somos uma Igreja missionária que não pode ficar com as portas fechadas, mas que deve sempre estar aberta para acolher e também para enviar em missão. Quero registrar aqui minha gratidão aos missionários que me acolheram tão bem em Moçambique, os dias de convivência com o Pe. Henrique, Pe. Mauro e com o professor Benedito, foram marcantes, e só tenho que agradecer, fui recebido e acompanhado como um verdadeiro irmão e pude me sentir parte da missão. Meu reconhecimento e meu muito obrigado.
Padre Fábio: Que mensagem o senhor gostaria de deixar para a diocese e para os fiéis sobre a importância da missão e da solidariedade entre os povos?
Padre Vicente: O saudoso Papa Francisco, nos escreveu sobre a fraternidade social, e sobre a ecologia integral, sobre o cuidado da casa comum. O papa Leão XIV nos seus escritos nos desafia a sermos promotores da paz e fazermos nossas escolhas na opção preferencial de Jesus Cristo, no mandamento maior que se volta para os mais necessitados e que estão em situação de maior vulnerabilidade. Somos chamados a viver em nossa Igreja local a ação evangelizadora na promoção da dignidade humana, no cuidado e no serviço à vida, de modo especial, nas situações de maior vulnerabilidade. A missão começa em casa e não pode ter fronteiras. Ide a todos e a nunciai o Evangelho.
Padre Fábio: Qual o gesto concreto, que pode ser realizado como forma de participação direta, mesmo que a distância, com a missão em Moçambique?
Padre Vicente: Neste final de semana, dias 23 e 24 de maio de 2026, toda a coleta de Pentecostes será destinada à Missão. No Rio Grande do Sul foram distribuídos os envelopes, mas é importante saber que toda a contribuição que for feita nas missas em qualquer lugar do Estado e de modo muito especial em nossa diocese, será uma forma de apoiar os missionários para continuar esta parceria entre a nossa Igreja e a missão além fronteiras, de modo específico, lá onde estão os missionários enviados pelo Regional Sul 3 da CNBB. Seja generoso na contribuição da coleta deste final de semana. Que o Espirito Santo ilumine e alegre os corações e as mentes. Você é missionário também quando partilha.












