Pe. Ramiro Mincato
A sinodalidade como método de agir na Igreja não foi consagrada apenas a partir dos documentos do Vaticano II – Lumen Gentium ou Gaudium et Spes – mas vem desde sua origem. Trata-se de uma práxis eclesiológica de inclusão e diversidade profundamente enraizada já no Evangelho de Mateus, e como todos sabemos – ou deveríamos saber – a Escritura é a “alma da teologia” (DV 24). A práxis da sinodalidade, portanto, não é uma invenção recente, como alguns gostariam de levar um público mais amplo a acreditar. Pelo contrário, o Sínodo é o modo de ser Igreja que vem desde tempos imemoriais (cf. Concílio de Jerusalém, At 15). Dado que o tema da “comunidade eclesial” é central no Evangelho de Mateus[1], sua eclesiologia ilumina a compreensão da sinodalidade como um dos seus elementos fundantes.
Uma comunidade mista, não homogênea. A comunidade mateana teve origem no judaísmo, mas já na época da composição do evangelho estava fora dos limites de seu locus operandi original”, tendo chegado à região de Antioquia da Síria, fora de Jerusalém e da Judeia, por volta dos anos 80-90 d.C. Composta majoritariamente por judeu-cristãos, mas misturada com os gentios, procurava conciliar a fé em Jesus com as tradições judaicas. Os judeus que criam em Cristo tinham sido expulsos da sinagoga dos judeus.
Mateus, um judeu-cristão helenista, escreveu, portanto, para uma comunidade que incorporava cada vez mais gentios entre seus membros. Procurava enfatizar tanto a “continuidade” quanto a “descontinuidade” entre a religião do Antigo Testamento e a comunidade de Jesus, o Messias. O número crescente de gentios criara conflitos internos, bem como tensões externas, com os membros das sinagogas próximas (cf. Mt 23). A incorporação dos não-judeus gerou resistência. A questão do pertencimento, portanto, tornou-se uma preocupação central para Mateus, que com habilidade tentava resolver o problema da divisão na comunidade.
Comunidade heterogênea composta tanto por pecadores como por virtuosos. A Igreja de Mateus não era uma seita, um grupo fechado, esotérico ou restrito a iniciados, ao contrário, desde o início se apresenta com espírito de inclusão e diversidade, como se lê na parábola do trigo do joio que crescem juntos (cf. Mt 13,24-30). A parábola quer ilustrar a convivência do bem e do mal presentes no mundo. Narra que houve uma semeadura e quando as plantas cresceram, os trabalhadores perceberam que havia joio misturado ao trigo. O dono do campo mandou que seus servos não separassem o joio do trigo, com esta explicação: “Mas ele respondeu: ‘Não; para não acontecer que, ao arrancar o joio, com ele arranqueis também o trigo. Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifeiros: arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; em seguida recolhei o trigo no meu celeiro’” (Mt 13,29-30). A Igreja de Mateus ensina assim a todos sobre a importância da paciência e do discernimento, que não devemos julgar ou tentar separar aquilo que parece ruim, pois o julgamento final cabe somente a Deus.
É claro que a parábola do “trigo e do joio” fala do mundo, como Jesus explica em seguida (Mt 13,38), e não da Igreja enquanto instituição. No entanto, se as parábolas de Mt 13 são sobre o Reino de Deus, então a comunidade dos seguidores de Cristo é uma expressão do reino dos céus no mundo. A Igreja, instituição dos discípulos de Jesus no mundo, é a forma pela qual o Reino de Deus opera na terra. É importante notar que a separação entre “maus e bons” (πονηρούς τε καὶ ἀγαθούς) está reservada apenas para o juízo final e não deve haver nenhuma segregação antecipada. A Igreja deve acolher todas as pessoas, pecadoras ou não, pois todos são convidados ao banquete do reino: “Estes servos, siando pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons, de modo que a sala nupcial ficou cheia de convivas” (22,10).
Sinodalidade como caminho de justiça. A palavra “Sínodo”não aparece em Mateus, como não aparece em nenhum outro escrito do Novo Testamento. Mas aparece a palavra “caminho”, usada metaforicamente para descrever um estilo de vida, as escolhas morais ou o destino final dos seres humanos, destacando principalmente a distinção entre dois caminhos: um largo que leva à perdição e um estreito que leva à vida eterna: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ela. Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida, e poucos são os que a encontram!” (Mt 7,13-14).
Neste contexto a palavra “caminho” está relacionada com a prática da justiça, isto é, com o fazer a vontade de Deus. Quem deve passar pelo caminho estreito são aqueles que buscam viver de acordo com os ensinamentos de Cristo, praticando a justiça, o amor e a verdade, mesmo diante das dificuldades e desafios. O caminho largo representa a facilidade e a falta de compromisso, enquanto o estreito exige esforço e dedicação. João Batista veio preparar o “caminho” do Senhor” (Mt 3,3). O “caminho” em Mateus não é uma estrada física, mas uma direção de vida que exige escolha e prática dos ensinamentos de Jesus. A palavra “caminho” destaca o percurso, que remete a um processo. Não se trata do ponto de chagada, mas de um processo. Esse caminho/processo deve ser feito junto com os outros discípulos, para juntos, escutarem e poderem discernir a vontade de Deus, isto é, isto só pode acontecer em comunidade. O “caminho”, portanto, não representa uma trajetória individual, mas uma experiência coletiva de seguimento, diálogo e corresponsabilidade, elementos centrais à sinodalidade na tradição cristã.
Uma comunidade inclusiva. A comunidade de Mateus não só é mista na sua composição, mas também inclusiva. O capítulo 18 de Mateus é central para que se compreenda uma “eclesiologia de inclusão”. Jesus orienta os discípulos para a vida comunitária, destacando temas essenciais, que regulam as relações entre os membros como humildade, reconciliação, disciplina e perdão. O texto enfatiza que a comunidade cristã deve ser marcada pelo cuidado mútuo, especialmente com os mais vulneráveis, como exemplifica na parábola da ovelha perdida (18,12-14).
Mateus ensina a resolver os conflitos dentro da igreja, sugerindo o diálogo e a correção fraterna como método, na oração em conjunto e na autoridade dada à comunidade para tomar decisões. Essa abordagem reforça a ideia de uma igreja participativa, onde cada membro é responsável pelo bem-estar espiritual do outro, o que reflete o caráter inclusivo e relacional da eclesiologia mateana: a comunidade, e não um indivíduo, tem a autoridade de ligar e desligar: “Em verdade vos digo: tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu”.
Mateus, o evangelho da Igreja por excelência. Mateus é único evangelista que utiliza a palavra ekklesia, termo que se refere a uma assembleia ou reunião de pessoas, geralmente para fins cívicos ou religiosos. Em Mateus 18 a palavra refere-se a uma comunidade de fiéis, pois a responsabilidade e a autoridade são coletivas em questões de disciplina e reconciliação (18,17).
Lembremos também que do ponto de vista antropológico, a dimensão comunitária é constitutiva da identidade do ser humano. Jesus ensina sobre o cuidado mútuo, a correção fraterna e a reconciliação, não simplesmente como valores morais, mas porque a dimensão comunitária é constitutiva, não opcional, do ser humano. Ninguém pode prescindir da sinodalidade, isto é, ninguém caminha sozinho neste mundo. A comunidade manifesta-se especialmente na oração, para a qual deve haver acordo: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali no meio deles“(18,19). É a sinodalidade, portanto, que garante da presença do Senhor. A oração comunitária, que já era comum no saltério, agora adquire novo sentido e força pela presença de Cristo, a presença real do ressuscitado, e não apenas mental.
O Primado de Pedro e a comunidade participativa. O texto de Mateus 16,13-20 apresenta o diálogo de Jesus com seus discípulos, culminando na confissão de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Nesse momento, Jesus afirma: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”. A origem e a missão da Igreja estão fundadas sobre a fé e a comunhão dos discípulos, porque nesse texto temos uma “escuta” e um “discernimento comunitário”. Jesus não pergunta apenas a Pedro, mas a todos: “Quem dizem os homens que eu sou?” e “E vós, quem dizeis que eu sou?”.
Jesus não faz aqui uma revelação unilateral, mas provoca um processo de escuta e diálogo, perguntando aos discípulos sobre o que as pessoas dizem e, em seguida, o que eles próprios pensam. Esse método de Jesus é emblemático para o discernimento comunitário na perspectiva sinodal, pois destaca a importância da escuta mútua, do confronto de ideias e da busca conjunta pela verdade.
O discernimento não é apenas uma decisão individual, mas um caminho trilhado em comunidade, onde cada membro é convidado a partilhar sua experiência e compreensão da fé. A resposta de Pedro, reconhecida por Jesus, mostra como a revelação divina pode emergir do diálogo e da abertura ao Espírito. Assim, Mt 16,13-20 inspira a Igreja a valorizar o processo de escuta, o respeito às diferentes vozes e a busca coletiva da vontade de Deus, reforçando o papel da comunidade na construção de decisões eclesiais fundamentadas na fé e no Espírito Santo.
As chaves de Pedro são as chaves da unidade. Neste mesmo contexto de Mateus 16,13-20, Jesus entrega a Pedro as chaves do Reino dos Céus, um gesto que simboliza a autoridade e responsabilidade entregues a Pedro. As chaves, tradicionalmente, representam o poder de abrir e fechar, de ligar e desligar, indicando a missão de Pedro e, por extensão, da Igreja, de guiar, acolher e discernir em nome de Cristo (cf. Mt 18,15-20).
As chaves, no entanto, não significam um poder exclusivo ou unilateral, mas remetem à dinâmica da comunhão e do serviço, pois embora o texto destaque a figura de Pedro, o episódio se insere em um contexto de diálogo, de escuta recíproca e de participação da comunidade, da qual Pedro é estabelecido como fundamento. Além disso, Jesus reconhece a ação divina na resposta de Pedro: “não foi a carne ou o sangue que te revelaram isso, mas o meu Pai que está nos céus”. Pedro, ao receber as chaves, é chamado a ser guardião da unidade (ligar e desligar), mas também a caminhar junto com os demais discípulos. A sinodalidade é a expressão concreta de uma Igreja que, unida, discerne, decide e se empenha em abrir caminhos de fé, esperança e amor para todas as pessoas.
Eclesiologia do serviço. Já próximos de Jerusalém para onde se dirigiam, Jesus aproveita o episódio dos filhos de Zebedeu (Mt 20,20-28) para inverter a lógica do poder e promover uma comunidade humilde e servidora: “quem quiser tornar-se grande entre vós, seja aquele que serve” (20,26). E, neste contexto, agora já na cidade de Jerusalém, depois de purificar o Templo que se tinha transformado em casa de comércio, Jesus, diante o que se poderia chamar de “clericalismo” criticando os escribas e fariseus, e advertindo contra títulos que geram hierarquias de poder, lembrando que todos são irmãos e irmãs no caminho: “Quanto a vós, não permitais que vos chamem de ‘Rabi’, pois um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos” (23,6).
Missão sinodal, corresponsabilidade e colaboração até o fim do mundo. Jesus envia os discípulos: “Ide e fazei discípulos meu todos os povos” (Mt 28,16-20). Neste texto da “Grande Missão” podem ser identificados alguns elementos da eclesiologia sinodal: 1. A iniciativa de Jesus em convocar os discípulos para a Galileia, o que mostra a importância de caminharem juntos, reunindo-se em comunidade para receberem a missão. 2. O mandato de “irem e fazerem discípulos” implica uma ação compartilhada, onde todos os discípulos participam ativamente na missão, refletindo corresponsabilidade e colaboração na missão.
“Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”. É outro aspecto fundamental da sinodalidade, pois garante o acompanhamento e a direção no caminho comum. Finalmente, o envio a todos os povos sugere uma abertura e universalidade em que a sinodalidade não se limita a um grupo fechado, senão que se estende a toda a Igreja em comunhão e participação.
Igreja, ekklesia, sinodalidade são o modo da presença de Deus. Um ponto alto do caminho comunitário e sinodal do Evangelho de Mateus, que não podemos esquecer, e que já aparece nos primeiros versículos do evangelho, é a profecia de Isaías anunciando o nascimento de Jesus como Messias: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão de Emanuel, que traduzido significa: “Deus está conosco” (Mt 1,23). A sinodalidade é possível porque não caminhamos sozinhos; o próprio Cristo caminha com a comunidade na história.
Em síntese, o Evangelho de Mateus nos convida a sermos uma Igreja que vive o amor no cotidiano, que sabe escutar (comunidade), que valoriza a todos (participação) e que sai em missão (mandato).
[1] R. France, “A pure church? Ecclesiological reflections from the Gospel of Matthew”, in Rural Theology, 4 (2006/1) 4.



