A terceira noite da Semana Teológica foi marcada pela reflexão sobre os compromissos sinodais e os caminhos de renovação da ação evangelizadora da Igreja. A assessoria foi conduzida por Dom Leomar Brustolin, da Arquidiocese de Santa Maria, que integrou a comissão redatora das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.
Ao iniciar sua reflexão, Dom Leomar apresentou uma perspectiva fundamental para compreender a sinodalidade: não se trata simplesmente de fazer coisas novas, mas de realizar aquilo que a Igreja sempre fez de um modo renovado.
“Não é o que fazemos. Nós continuaremos fazendo as mesmas coisas como Igreja, mas de um modo diferente”, destacou.
A partir dessa perspectiva, a noite aprofundou a necessidade de uma verdadeira conversão pastoral e sinodal, marcada pelo reconhecimento daquilo que precisa ser transformado e pelo compromisso de renovar a ação evangelizadora sem romper com a riqueza recebida da tradição da Igreja.
Renovar na continuidade
Dom Leomar ressaltou que a Igreja não é algo que se inventa. “Ninguém inventa a Igreja: nós recebemos a Igreja.” Por isso, a renovação não significa abandonar aquilo que foi recebido, mas discernir como a fé apostólica pode continuar iluminando os desafios do mundo atual.
Nesse caminho, destacou-se a importância da reforma na continuidade: nem tudo o que é novo representa necessariamente progresso, assim como nem tudo o que é antigo corresponde à verdadeira tradição. A Igreja é chamada a receber, discernir e transmitir a fé com fidelidade.
Recordando a Lumen Gentium, Dom Leomar lembrou que a Igreja é santa e, justamente por isso, está sempre necessitada de purificação e renovação. Esse processo também alcança a maneira de celebrar, a liturgia e as diferentes formas pelas quais a Igreja expressa e transmite a fé.
Comunhão como fundamento da sinodalidade
Outro eixo central da reflexão foi a comunhão. Partindo da Trindade como comunidade de amor, Dom Leomar destacou que a Igreja, nascida dessa comunhão, não pode viver no isolamento.
A sinodalidade começa, portanto, pela comunhão.
Nesse contexto, foi feito um alerta sobre o risco de lideranças e comunidades que não desejam construir comunhão. A experiência cristã não pode ser reduzida a iniciativas individuais ou interesses particulares.
Recordando a Evangelii Nuntiandi, de São Paulo VI, Dom Leomar reforçou que a evangelização está no coração da identidade da Igreja. A comunhão gera comunhão, e o testemunho conduz ao anúncio.
A Igreja é chamada a acolher aqueles que se aproximam, especialmente em um tempo em que muitas pessoas voltam a buscar a fé cristã. Entretanto, acolhida e verdade não podem ser colocadas em oposição.
A acolhida sem verdade torna-se vazia; a verdade sem caridade fecha portas.
Participar é pertencer
A noite também aprofundou o sentido da participação na Igreja. Participar não significa apenas estar presente em eventos, assumir atividades ou ocupar espaços de decisão. Participar é pertencer.
Pelo Batismo, cada cristão é parte do povo de Deus e chamado a assumir sua responsabilidade na vida e na missão da Igreja.
Por isso, a sinodalidade não pode ser confundida com democracia ou com a simples prevalência da opinião da maioria. Trata-se de escutar, discernir e buscar aquilo que Deus deseja para a sua Igreja.
Dom Leomar também destacou a importância da diocesanidade. A pertença cristã não se limita a uma paróquia, grupo ou movimento. Cada comunidade faz parte de uma Igreja local, em comunhão com o bispo.
De adeptos a discípulos missionários
A missão evangelizadora foi outro ponto central da reflexão. Dom Leomar apresentou uma pergunta que sintetiza um dos grandes desafios pastorais atuais:
“Estamos formando adeptos ao cristianismo ou discípulos missionários?”
A questão aponta para a necessidade de superar uma pastoral centrada apenas na realização de atividades e eventos e investir em processos de acompanhamento, conversão e amadurecimento da fé.
Nesse sentido, uma das frases que marcou a noite foi:
“Menos eventos na Igreja e mais processos. Os eventos geram fãs; os processos geram discípulos.”
A missão da Igreja precisa colocar novamente no centro o encontro com Jesus Cristo, a Palavra de Deus, a liturgia e a conversão.
Uma Igreja que escuta
A sinodalidade também exige uma transformação na maneira de se relacionar com as pessoas.
Ao recordar o modo de Jesus agir, Dom Leomar destacou que Ele escutava e se aproximava das pessoas antes de anunciar. A samaritana, Bartimeu, Zaqueu e tantos outros mostram que escutar é parte essencial do caminho evangelizador.
Escutar não significa relativizar a verdade, mas criar condições para que o outro seja acolhido e possa percorrer um caminho de conversão.
O discernimento também se torna mais profundo quando existe uma verdadeira disposição para ouvir. “O discernimento melhora quando se escuta mais”, ressaltou.
Por isso, a participação exige processos de escuta, corresponsabilidade e formação.
Comunhão, missão e pertença
Ao longo da noite, foram articuladas três dimensões fundamentais da vida da Igreja: comunhão, missão e pertença.
A comunhão conduz à missão. A missão nasce da experiência de quem encontrou Cristo e deseja anunciar essa experiência. E a pertença faz com que cada batizado reconheça que é parte de uma Igreja que recebeu e pela qual também é responsável.
O desafio é “alargar a tenda”, criando espaços de diálogo e encontro com pessoas diferentes, sem abrir mão da verdade da fé.
Compromissos concretos
Ao final da reflexão, Dom Leomar apresentou caminhos concretos para a ação evangelizadora, entre eles a promoção de uma escuta missionária, especialmente junto daqueles que se afastaram da comunidade; o investimento na formação permanente; o fortalecimento dos Conselhos Pastorais e Econômicos; a definição de compromissos missionários concretos e a avaliação constante da ação evangelizadora.
A pergunta que deve orientar esses processos é: como está a qualidade da nossa missão?
É preciso avaliar se as comunidades estão favorecendo verdadeiramente a conversão e o discipulado; se a Iniciação à Vida Cristã está formando discípulos; se a Palavra de Deus está conduzindo ao encontro com Cristo; se a liturgia favorece uma experiência profunda da fé; e se o serviço à vida plena está alcançando as pessoas.
A terceira noite da Semana Teológica apresentou, assim, a sinodalidade não como uma moda ou uma simples metodologia pastoral, mas como um modo de ser Igreja.
Uma Igreja que recebe a fé e não a inventa. Que se renova sem romper com a tradição. Que escuta sem relativizar a verdade. Que acolhe sem deixar de anunciar. Que participa não pelo ativismo, mas pelo sentido de pertença.
E, sobretudo, uma Igreja chamada a passar de uma pastoral centrada apenas em eventos para uma pastoral capaz de gerar processos de conversão e verdadeiros discípulos missionários.
O desafio permanece para cada comunidade: escutar o que o Espírito Santo diz à Igreja hoje, discernir com responsabilidade e transformar esse discernimento em caminhos concretos de comunhão e missão.


















