Pe. Ramiro Mincato
O Livro das Lamentações é usado na Liturgia da Semana Santa para lembrar a Paixão de Cristo, mas é fundamentalmente uma fonte que alimenta a esperança. A tradição popular conservou, durante a procissão da Sexta-feira Santa, no canto de Verônica, um trecho das lamentações, posto na boca de Jesus: “Vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede: haverá dor semelhante à minha dor?” (Lm 1,12).
O Livro das Lamentações – cantos fúnebres – foi escrito depois da queda de Jerusalém (586 a.C.), descreve a destruição da cidade pelos babilônios e os acontecimentos que seguiram aquela catástrofe: fome, sede, matanças, incêndios, saques e exílio forçado. É um tempo marcado pelo desespero, pela ruína, perda e busca de esperança em meio à devastação.
Não é difícil perceber um contexto de angústias semelhante nos dias atuais. Comunidades e povos são afetados por conflitos armados, guerras, desastres naturais e por uma proliferação assustadora de mentiras espalhadas para criar ódio e justificar violências. Diante dessa realidade, quem não sente necessidade de gritar a própria dor?
O livro das Lamentações traz o grito de um povo que perdeu tudo, menos a fé. Hoje, porém, nem a fé se salva, pois proliferam nos meios de comunicação e nas igrejas “teologias de domínio”, que instrumentalizam a fé como ideologia totalitária, cujo objetivo é chegar ao poder pelo domínio e pela influência sobre as estruturas sociais, religiosas, políticas e econômicas, acrescentando-se a isso ainda uma falsa teologia que encanta, que fascina a todos com promessas de riqueza e prosperidade. Nós também temos um grito de dor sufocado na garganta diante das crises humanitárias, cada vez mais acentuadas pelo individualismo exacerbado e pela globalização da superficialidade.
Poucas vozes proféticas ainda buscam conforto e renovação hoje, para que se possa reafirmar a esperança “a cada manhã”, mesmo quando tudo parece perdido, como nos canta as lamentações: “Os favores de Javé não terminaram, suas compaixões não se esgotaram; elas se renovam todas as manhãs, grande é a sua fidelidade” (Lm 3,22-23).
Quando a religião não conduz a uma vivência autêntica da fé, ela contribui para a devastação do Reino. O sofrimento não é apenas resultado da invasão e destruição física, mas é fruto também da distância espiritual causada pela superficialidade das práticas religiosas. Os ritos, por si só, não são capazes de sustentar a esperança ou restaurar a dignidade; precisam ser acompanhados de sinceridade, justiça e compaixão.
De que devastações podemos nos lamentar? Tanto das calamidades externas, como também da perda do sentido comunitário da fé. O livro das Lamentações busca uma espiritualidade para além das aparências, capaz de inspirar renovação e esperança mesmo naquelas manhãs mais escuras.
O autor não esquece que Deus é Senhor de tudo e de todos. Mesmo naqueles momentos ele pode afirmar que, apesar da destruição, “as misericórdias de Deus permanecem e se renovam”. O trecho não só expressa a experiência coletiva do sofrimento, mas também sugere uma reinterpretação da relação com o divino: o Deus da aliança, mesmo diante da infidelidade e do castigo, sustenta o povo por meio de sua fidelidade (de Deus) e da renovação constante da graça. Israel, por meio da profecia, foi capaz de reencontrar esperança e reconstruir sua identidade.
“Os favores de Javé não terminaram, suas compaixões não se esgotaram; elas se renovam todas as manhãs, grande é a sua fidelidade” (Lm 3,22-23). Deus não abandona o seu povo, ele está pronto a agir com misericórdia. O autor do livro das Lamentações reconhece a fidelidade do Senhor como fonte de proteção. Graças à fidelidade sua existência não é consumida pelo desespero. Aos leitores hoje cabe uma reflexão sobre a renovação diária da esperança, mesmo diante de adversidades e traições: “Faze-nos voltar a ti Javé, e voltaremos. Renova nossos dias como outrora (Lm 5,21).





